Consultar apenas a Internet pode trazer riscos à saúde

Consultar apenas a Internet pode trazer riscos à saúde

“Imagine uma pessoa que tem uma dor de cabeça, que pode ser uma simples enxaqueca, e se convence de que tem um tumor intracraniano. Ao pesquisar online, ela certamente vai achar uma série de sintomas coincidem com os seus, porque muitos sintomas das doenças, desde as mais simples até as mais complexas, se entrecruzam. Isso pode trazer problemas, no mínimo psicológicos”.

“O inverso também pode ocorrer”, continua. “A pessoa imagina que tem uma enxaqueca, faz uma busca, acha que seus sintomas estão de acordo com o diagnóstico de enxaqueca e começa a se automedicar, quando na verdade ela tem é um tumor intracraniano. Aí as conseqüências são muito mais graves,” completa, lembrando que a automedicação pode retardar um diagnóstico e prejudicar o paciente. “A Internet tem que ser usada em conjunto com o médico, e não sozinha”.

Rodrigo Santana de Oliveira, da comunidade Linfoma – Brasil do Orkut, já passou por isso. “Senti na prática o que todos dizem -que se deve tomar cuidado com a fonte da informação- pois há artigos e informações que podem assustar, atrapalhando o tratamento de cânceres como o meu que são influenciados pelo estado psicológico do paciente”.

“Para evitar esbarrar em informações erradas valem todas aquelas regras de confiança de qualquer comunidade online”, explica a arquiteta de informação Laura Lessa que recorre a comunidades brasileiras para se informar sobre o lúpus, doença auto-imune. “Você acaba conhecendo as pessoas que estão lá e aprende a julgar a qualidade dos depoimentos. As comunidades também passam por uma auto-regulação. Quando alguém começa a fazer terror é rechaçada pelas outras. Mas isso não é comum”.

Mesmo assim, nada impede que as pessoas tomem decisões irresponsáveis baseadas em informações da Internet. “Às vezes, nas comunidades aparece gente que lê sobre um tratamento milagroso e posta uma mensagem dizendo que está abandonando o tratamento tradicional. Geralmente o resto do grupo aconselha a não fazer isso”, fala Laura. “A coisa mais irresponsável que você pode fazer quando tem lúpus é deixar de tomar os remédios porque leu sobre algum remédio natural milagroso. O remédio que se consegue sem receita geralmente é inofensivo -e ineficaz, claro”.

Rita Pereira, uma das moderadoras da comunidade Gastroplastia do Orkut, considera a influência da Internet bastante positiva, mas chama a atenção para os riscos: “Um lado perigoso de tudo isso é a banalização da gastroplastia. Tem gente engordando 20 ou 30 quilos para poder operar achando que vai resolver seus problemas e ficar magra para sempre. A cirurgia não é a solução para tudo. Se a pessoa não se cuidar, pode voltar a engordar”.

“As pessoas ficam deslumbradas com os depoimentos sobre o emagrecimento e acabam esquecendo que essa é uma cirurgia muito séria que pode deixar seqüelas graves. Às vezes, chamam-me de pessimista, mas não é isso. Só falar das coisas legais é fácil demais. Eu tive um problema sério, comum entre os operados, tive aderência, fiquei 40 dias no hospital e 10 na UTI. Depois de tudo isso engordei 20 quilos e a comunidade foi fundamental para encontrar incentivo e voltar para a dieta. Essa é uma luta diária, mas que com a ajuda do pessoal fica mais branda”.

Saber filtrar as informações é complicado, e em certos casos pode ser impossível para um paciente leigo. “As pessoas procuram por informação no Google, e aí vêm milhões de informações, artigos científicos de 1950, de 1980, de 2000, do Brasil, do exterior. Tem informações que estão desatualizadas e outras que não servem para o contexto brasileiro,” alerta Moisés Chencinski, pediatra. “Essa informação não vai filtrada para o paciente: cabe ao médico fazer esse filtro e orientar o paciente”.

FONTE: UOL

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