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Sábado, 04 de setembro de 2010

Dino Soraggi: Carta a Chico Terra

Coluna Música.

última alteração: 28/07/2010

diogosoraggi@hotmail.com

Ontem sua presença em minha casa foi muito boa. Ouvimos Louis Armstrong regados a cerveja e o CD do Kiss Unplugged  MTV passou desapercebido. O trompete do Louis foi mais forte. Mostrei-lhe meus livros, que são poucos, e você ficou de ler o Misto Quente do Bukowski assim que terminar seu trabalho. Debatemos vários assuntos até chegarmos à questão da fé.

Você expressou sua opinião e disse que quando morremos, a consciência acaba e dormimos para sempre. Um sono sem sonho. Uma escuridão silenciosa, sem música, sem hospitais espirituais, sem vida. Fiquei pensando nisso. Eu que às vezes acredito que vamos para o paraíso, subitamente já passo não acreditar em nada mais. Então questionei pra que evoluímos e crescemos e trabalhamos e procriamos? Você disse que era a energia do universo que é assim. Sempre foi. Antes de nascer estávamos na escuridão silenciosa, no sono sem sonho e quando morremos retornamos ao mesmo lugar. Ainda não consegui dormir e fico pensando nisso tudo ao som de Louis Armstrong. Chego à janela do meu quarto e olho para o céu, escuto a solidão da cidade que está adormecida e apenas eu ali no meu prédio, escutando o silêncio da noite e o trompete de Louis que soa maravilhas e que por um outro lado me deixa num estado de vazio absoluto.

É muito triste meu caro Chico, pensar que ao morrer, não há nada além da morte. Por isso que não consigo dormir. Tenho medo da morte. Todos os dias penso nela. Quero morrer velho, mas o acaso pode me levar antes. Por isso ando sempre olhando pros lados e para trás e não arrisco subir um monte de pedras em cachoeiras escorregadias. Prefiro ficar em baixo, próximo à ducha.

Por fim, acho que sua vinda aqui em casa foi boa, mas foi ruim. Estou acordado até agora fazendo perguntas na minha cabeça. De onde vim pra onde vou? Será que viemos do nada? Estamos aqui para uma simples passagem e podermos gozar das coisas boas da vida e das ruins fugir? Quando voltar em minha casa meu caro Chico, traga apenas a cerveja e os cd´s. Vamos fingir que a vida é eterna e que vamos para o paraíso, pois se existe o inferno, ele é aqui.

Grato,
    
Diogo Boaventura

Faixa Bônus: Louis Armstrong – Hello Dolly

Antes de morrer, Louis Armstrong disse: ("Eu tive o meu trompete, uma vida linda, uma família, o Jazz. Agora estou completo.")

O conteúdo assinado não reflete, necessariamente, a opinião do Diário de Araxá.



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