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Justiça proíbe demolição de sobrado histórico

Justiça proíbe demolição de sobrado histórico

Foto: Finholdt

Da Redação/Com Estado de Minas – Uma vitória para os defensores do patrimônio cultural da turística Araxá. O juiz da 3ª Vara Cível, Ibrahim Fleury de Camargo Madeira Filho, concedeu liminar, em ação do Ministério Público Estadual (MPE), suspendendo a demolição do sobrado do século 19 que abrigava a Pensão Tormin. A propriedade particular localizada na Praça Coronel Adolpho, 48, no Centro, que pertenceu à Anna Jacintha de São José, a célebre Dona Beja (1800-1873), e que poderia ser derrubada para dar lugar a uma loja de uma rede nacional de varejo. A ação foi proposta pelo promotor Márcio Oliveira Ferreira. Já em Estrela do Sul, também no Alto Paranaíba, onde Beja teria vivido de 1840 até sua morte, foram encontrados fragmentos ósseos que podem ter sido dela, durante obras numa praça próxima ao local onde havia um antigo cemitério.

Para o comerciante Antônio Nogueira Lima Júnior, integrante de um grupo que luta pela preservação do patrimônio local, a decisão judicial foi um alívio.

“Araxá não tem nenhum bem tombado e perdeu, ao longo dos anos, imóveis históricos importantes. Restaram poucos, a exemplo do casarão construído em 1830, antes ocupado pela pensão e agora vazio”. O comerciante e outros moradores querem que o sobrado, já inventariado pelo município, seja desapropriado pela prefeitura, restaurado, e tenha finalidade cultural, “podendo se tornar sede do museu de mineralogia ou de uma orquestra”.

Antônio lembrou que a antiga pensão fica perto do Museu Dona Beja, cujo casarão foi comprado em 1964 por Assis Chateaubriand (1892-1968), fundador dos Diários Associados, e doado à comunidade.

Segundo Alex Silva, supervisor da área de eventos da Fundação Cultural Calmon Barreto, vinculada à Prefeitura de Araxá, não há interesse da municipalidade em comprar o imóvel ou desapropriá-lo. De acordo com dados da fundação, o prédio, antes em estilo colonial, sofreu a última intervenção na fachada em 1908. Dono do imóvel há 57 anos, o ex-vereador Jairo do Espírito Santo Brito diz que está em negociação com uma imobiliária para venda. “É só um prédio antigo, e eu não tenho dinheiro para restaurar”, declarou.

A decisão cabe recurso.

Prova material

A história do sobrado foi pesquisada pela professora universitária Glaura Teixeira Nogueira Lima, autora de livros e artigos para jornais da cidade. Ela escreveu: “À Praça Coronel Adolpho, vê-se uma casa permeada de histórias tanto quanto foram muitos seus proprietários ou inquilinos e inúmeras as funções que ocupou nos últimos dois séculos. Trata-se da Pensão Tormin, instituição tradicional fundada pela família de descendentes de italianos e, felizmente, hoje preservada pela terceira geração deles. O sobrado mantém-se como prova material de uma construção associada historicamente, também, à Dona Beja, às famílias Afonso de Almeida, Botelho, Vieira Machado, Ávila, Paiva, Magalhães, Scarpellini, Rosa e Rodrigues Valle”.

Doutora em história, Glaura descobriu que, durante a primeira metade do século 20, o prédio serviu de sede de escolas particulares e de hotel, antes de ser, a partir de 1943, pensão. “Situada entre as casas das famílias Costa Pereira, à sua direita, e Amado de São Paulo, à esquerda, o casarão fora construído nas décadas iniciais do século 19 por Dona Beja, conforme ela mesma declarou oficialmente. O memorialista Sebastião de Affonseca e Silva (1877-1968), notório admirador da personagem, já afirmava isso.”

E mais: “É possível que, após a partida de Anna Jacintha para Estrela do Sul, motivada por um período de estagnação econômica na então Vila de São Domingos do Araxá, ali tenha sido, algum tempo, um lugar para acolher desabrigados. Tal destinação alterou-se quando ela vendeu o imóvel com o amplo terreno, em 1864, para Ignácio Afonso de Almeida. Doravante o sobrado será revendido por sucessivas vezes.”

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