Maurício de Souza comemora 80 anos no Fliaraxá

Maurício de Souza comemora 80 anos no Fliaraxá

Mauricio de Sousa, que comemora seus 80 anos no Fliaraxá 2015, fala sobre a criação das histórias da Turma da Mônica, sobre a importância da leitura e do encontro dos autores com o público, sua relação com Minas e a cultura mineira. Leia entrevista do desenhista, que estará no Festival no dia 30 de agosto, domingo, às 14h, na Fundação Cultural Calmon Barreto. A entrada é gratuita para todas as atividades do evento, que começa no dia 26 de agosto.

 

Leia a entrevista com Mauricio de Sousa

 

Qual o papel da literatura na sua formação? Você era um bom leitor na infância? 

Mauricio de Sousa (MS) –  Essencial para quem quer um dia também criar personagens, histórias, vida no papel.  Meus pais sempre traziam gibis em minha infância e depois de um tempo comecei a ler livros. Na juventude chegava a ler um por dia.

 

Qual a sua melhor lembrança da infância relacionada a livros e leitura? 

MS –  Lembro muito bem das histórias do Spirit de Will Eisner. Desenhos lindos e roteiros exemplares que me fizeram sonhar um dia poder contar histórias daquela forma.

 

Você acredita que a turma da Mônica é uma porta de entrada no mundo da literatura? 

MS – Sempre há pessoas que me dizem que seus filhos aprenderam a ler com a Turminha da Mônica. Hoje trabalhamos com mais de 20 editoras com centenas de títulos de livros além das revistas em quadrinhos mensais. Nesse ano são mais de 40 lançamentos só em livros. Sabemos da responsabilidade de estarmos conquistando leitores desde sua infância e trabalhamos com alegria para mantermos essa chama acesa por muito tempo na vida de cada um.

 

Por falar em Turma da Mônica, quando você teve a inspiração para criar a primeiro personagem, imaginou que teria o sucesso alcançado?

MS- Acredito que essa minha inspiração em filhos, amigos e lembranças da minha infância para desenvolver personagens foi uma das razões do sucesso da Turminha. De alguma forma, os leitores sabem que minhas histórias não são apenas criações, mas um espelho do que vivemos no dia-a-dia.

 

Qual o segredo da longevidade da Mônica e seus companheiros?

MS –  Nosso sucesso é o resultado de manter acima de qualquer coisa o respeito aos leitores. Nunca nos acomodamos no sucesso mas encaramos como um desafio mantê-lo e, por essa razão, procuramos sempre estar inovando. O leitor sabe quando alguém sua a camisa para poder atendê-lo e responde da forma mais carinhosa possível. Assim os primeiros leitores de nossas primeiras publicações foram passando esse carinho para a próxima geração e assim por diante.

 

Depois de décadas de carreira, com os filhos crescidos, de onde vem a inspiração para a criação de personagens e histórias?

MS –  O começo foi bem difícil. Realmente eu fazia tudo e ainda trabalhava como repórter. Depois comecei a ter que viajar para os contatos com jornais do interior para republicação de minhas tiras. Como consegui entrar em vários jornais, tive que ter mais gente me ajudando na produção das tiras e assim acabei formando uma equipe dentro dessa progressão. Hoje temos uma ótima equipe de roteiristas e desenhistas para uma produção de cerca de 1200 páginas/mês de quadrinhos.

 

Como é a sua rotina de criação? 

 

MS – Difícil manter rotina numa atividade tão cheia de novidades e desafios. Tento planejar o dia e cuidar das coisas da empresa pela manhã, ainda no computador e no telefone. À tarde, cuido das coisas do estúdio, inclusive avaliando ideias, desenhos e participando de reuniões. À noite, faço um serãozinho para tirar algum atraso ou preparar algo para o dia seguinte. Depois leio. Leio bastante. Até a madrugada.

 

Qual o livro de cabeceira atual de Mauricio de Sousa? E seu passatempo?

 

MS –  Livro: Obra completa de Monteiro Lobato. Passatempo: fotografia. 

 

Que importância teve para a sua carreira, ser o primeiro quadrinista a ser empossado pela Academia Paulista de Letras?

MS – É um reconhecimento de que a linguagem dos quadrinhos caminha pela literatura também. e que a alfabetização  pelos quadrinhos, como costuma ocorrer com crianças à partir dos 4 anos de idade, cria um leitor futuro para todo o tipo de publicação. 

 

Você considera que o brasileiro é um povo que lê pouco?

MS- Pelo sucesso que são as Bienais de Livro por todo o país acho que há muita vontade pela leitura de livros. Mas pode ser bem melhor. Deveria haver mais bibliotecas próximas às escolas. A leitura é a melhor forma de exercitar a criação.

 

Como avalia o advento da tecnologia e as novas formas de comunicação no seu trabalho?

MS-  Essenciais para a comunicação autor-leitor. eu mesmo faço questão de responder aos meus seguidores no twitter, por exemplo. Essa interatividade nos dá noção do que nossos leitores querem em nossas historinhas. Uma resposta imediata para a evolução desse diálogo.

 

O que o paulista Mauricio de Sousa conhece de Minas Gerais? 

MS – Muita coisa. Minha filha Magali mora em BH.  Por aí dá pra perceber que a comida mineira é um atrativo irresistível, certo? Mas tem muito mais com a diversidade de paisagens, as cidades patrimônio da humanidade como Ouro Preto, Diamantina e Congonhas e os grandes artistas que vieram de lá. É quase que uma terapia conversar com o amigo Ziraldo.

 

Há alguma influência da cultura mineira em seu trabalho?

 

MS – Sim. As crianças brincando nas ruas com muita árvore pelos quintais é uma marca em nossas historinhas e muito das pradarias de Minas estão nelas. O Chico Bento, por exemplo, tem muito do mineiro.

 

Qual é o autor mineiro que mais lhe agrada?

MS-  Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa são influência de qualquer autor que queira entender como escrever bem uma história. Aí tem Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Ziraldo e tantos outros que fica difícil definir um só.

 

Qual a importância dos festivais literários na formação do leitores e para o autor?

MS –  O encontro dos autores com seus leitores é um momento mágico para os dois. Para o leitor é ver alguém que lhe conta histórias para que possa viajar num mundo novo. Para o autor é reconhecer seu trabalho em cada olhar, cada palavra de carinho e alegria de seu leitor. Esse momento se eterniza e cria um vínculo maior para o estímulo à leitura. Crianças que visitam esses eventos aprendem que leitura é muito legal! Só por isso são de grande importância para a alma humana. 

 

Como se sentiu com o convite de comemorar seus 80 anos no Fliaraxá? 

MS – Claro que adorei. Nada melhor que comemorar um aniversário com seus leitores bem pertinho.

Notícias relacionadas