Fliaraxá 2016: Escritor italiano Roberto Parmeggiani debate inclusão nas escolas

Fliaraxá 2016: Escritor italiano Roberto Parmeggiani debate inclusão nas escolas
Foto: Divulgação

O escritor italiano Roberto Parmeggiani é umas das atrações internacionais do 5ª Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), que acontece de quarta (14) a domingo (18), com programação principal na Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB) e alternativa no Teatro Municipal.

Parmeggiani, que também é tradutor e educador, vai compor uma mesa com a secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo, para um debate sobre a importância da inclusão nas escolas, na sexta-feira (16).

> Programação Fliaraxá 2016

Em um bate-papo, o autor adianta sobre o poder transformador da literatura, os desafios no processo de inclusão e fez uma avaliação da produção literária infantil no Brasil e no mundo. Confira a entrevista:

Fliaraxá – Qual a importância da literatura no processo de inclusão social?

Parmeggiani – A inclusão social é o resultado da capacidade de valorizar as diferenças como elemento constitutivo do contexto social, ambiental, educativo no qual estamos inseridos.

 A literatura desempenha um papel importante, pois permite que o leitor se confronte com modelos e imagens muito diferentes, conseguindo aumentar as possíveis representações da sua identidade. Este, efetivamente, é o primeiro passo para uma real inclusão: perceber que nós somos uma das possibilidades de ser do ser humano e que, no mundo, tem muitas outras, de igual valor.

Fliaraxá – Qual o maior desafio no processo de inclusão nas escolas?

Parmeggiani – Se nos referirmos à escola como um dos lugares mais importantes para o exercício da cidadania, viver a vida juntos na sala de aula significa poder experimentar a essência da aprendizagem, que é construção social (você aprende com os outros) e pluralidade de modos e estilos (você aprender dos outros). Compartilhar, cada dia, maneiras diferentes de aprender, de comunicar, de reagir, de encontrar soluções e ver a variedade e os diversos graus de habilidades em cada pessoa, é uma oportunidade insubstituível para uma aprendizagem significativa: pessoal, durável e transferível para fora do espaço escolar.

Aceitar este ponto de vista significa acreditar que os alunos com deficiência e as estratégias e metodologias “especiais” são um recurso para a aprendizagem de todos os alunos, porque capazes de aumentar a personalização e o intercâmbio entre habilidades e conhecimentos. Neste sentido, a qualidade da integração na escola é a qualidade de toda a escola.

Inclusão não significa tornar os outros como nós, ou, inversamente, desistir de nossa identidade para assumir a do outro, mas construir pontes entre as pessoas, as situações e as habilidades. A educação inclusiva aumenta a integração quando consegue tecer as vozes de todas as partes interessadas de forma aberta, interprofissional, característica que é fundamento de cada situação educacional onde cada pessoa, com o específico papel dela, traz a sua própria contribuição indispensável e complementar.

O maior desafio, então, é passar de “temos que fazer porque somos bonzinhos e os diversos tem que ser ajudados” e “queremos fazer porque entendemos que a participação ativa de todas as diversidades é uma vantagem para a sociedade inteira”.

Fliaraxá – Qual é o foco do seu trabalho?

Parmeggiani – Como educador meu trabalho é relacionado com o tema da relação com a diversidade e com grupos diferentes, seja por idade, seja por tipologia: crianças e adolescentes na escola, professores e educadores, pais e também grupos de pessoas deficientes. A deficiência é certamente um tema central, especialmente em relação à possibilidade de permitir que todos possam jogar plenamente o seu papel, participando ativamente na vida social,  exercendo seus direitos e deveres, verdadeiramente incluídos.

Fliaraxá – Quais são os principais desafios de se trabalhar com a literatura especializada?

Parmeggiani – Na verdade eu não trabalho com literatura especializada. Costumo dizer que um dos objetivos da minha literatura infantil é de emprestar palavras para nomear aquilo que o leitor sente, para se espelhar em uma outra experiência e perceber que não é o único que está vivendo aquela situação. Os meus livros para a infância abordam temas que eu acho importantes como a diversidade, a sustentabilidade, o bullyng, a aceitação da morte, entre outros, não pelo tema em si, mas porque eu quero transformar em literatura o cotidiano. Etimologicamente, literatura é a capacidade de ler e escrever, por isso a representação da realidade através das palavras, para mim, é um ato de liberdade porque visa permitir aos outros aumentar a capacidade de ler/entender e escrever/explicar os acontecimentos da vida.

Fliaraxá – Na Europa, mais especificamente na Itália, se dá o devido valor à literatura? É mais do que se vê no Brasil?

Parmeggiani – Também na Europa e na Itália tem (há) uma crise da literatura e, especialmente, da leitura. Sem dúvida, porém, a literatura tem ainda um lugar importante na vida cultural e política. O Brasil, apesar de ser um país jovem, tem uma história literária bem interessante, que nos últimos anos ganhou um espaço internacional importante. É necessário, porém, continuar com o percurso de educação e leitura para que sempre mais pessoas possam ter acesso ao livro, seja na escola, seja fora dela. Esta sim é uma diferença em relação à Europa, onde é muito difícil que uma pessoa não tenha acesso à leitura. Na Itália, especificadamente, o problema é falta de vontade de ler.

“Os meus livros para a infância abordam temas que eu acho importantes como a diversidade, a sustentabilidade, o bullyng, a aceitação da morte, entre outros”

Fliaraxá – O tema do V Fliaraxá é “O amor, a leitura e as diferenças”. A seu ver, de que forma estes três elementos se encontram?

Parmeggiani – As três palavras, na minha experiência, são bem ligadas. A escrita é um ato de amor, uma entrega total que chega ao outro através da leitura, outro ato de amor, de confiança que relaciona diferenças, as inclui.

Além disso, os três temas têm muito a ver com o meu último livro, “O mundo de Arturo”, publicado pela Editora Nós. Arturo é um menino que tem dificuldade com a leitura, se percebe bem diferente dos outros e pensa que não vale nada. Mas ele não está sozinho, ele tem um tio com o qual passa muito tempo falando de cavaleiros. Nesta relação, através do amor e da confiança do tio, Arturo encontra um caminho para voltar a acreditar nele mesmo e nos seus desejos.

Fliaraxá – O tema do Fliaraxá vai tratar das diferenças. Na sua opinião, a literatura tem o poder de amenizar as diferenças com a propagação de conhecimento?

Parmeggiani – Ao contrário, eu penso que a literatura exalte as diferenças mostrando todas as nuances do ser. E isso é muito importante. Nunca conseguiremos construir uma sociedade justa, na qual todos possamos nos sentir igualmente cidadãos, senão através do reconhecimento das diferenças. Conviver, para mim, significa respeitar o outro a partir da sua unicidade, fruto das escolhas livres que ele fez.

“A escrita é um ato de amor, uma entrega total que chega ao outro através da leitura, outro ato de amor, de confiança que relaciona diferenças, as inclui”

Fliaraxá – Qual a importância dos festivais para a formação de novos escritores e leitores?

Parmeggiani – Já tive a oportunidade de participar da Flip de Paraty, em 2014, na qual apresentei meu primeiro livro no Brasil “A lição das árvores”. Os festivais que aproximam autores e leitores são muito importantes, tanto para uns quanto para outros. Perceber que o autor é como nós, nos permite pensar que a leitura e a escrita não são uma experiência exclusiva para alguns escolhidos, mas para todos.

Fliaraxá – Quais são os autores brasileiros favoritos?

Parmeggiani – São vários! Mas entre outros: Clarice Lispector, Manoel de Barros, João Carrascoza.

Fliaraxá – Você é autor de livros infantis. Qual a sua avaliação da produção literária para este público no Brasil e no mundo?

Parmeggiani – Nos últimos vinte anos, a literatura infantil ganhou muito espaço e no mundo são muitos os livros publicados. Pessoalmente, penso que isso seja uma coisa boa apesar de ter, junto com textos e ilustrações excelentes, também livros medíocres e de pouca qualidade. Mas tem um movimento interessante ligado à literatura infantil, autores que se questionam, editores que querem produzir bons livros e leitores sempre mais atentos e críticos.

Fliaraxá – A seu ver, qual a importância do incentivo à leitura desde a infância?

Parmeggiani – A infância é o período privilegiado para aprender. Ter contato com os livros, seja como objeto, seja como conteúdo, escutar histórias, virar as páginas centenas de vezes, se apaixonar por alguns personagens, é muito importante porque torna o livro familiar, como um bom amigo com o qual você gosta de passar tempo. Assim, quando for adulto, você não terá medo de enfrentar mil páginas cheias de palavras

Fliaraxá – Quais suas expectativas para o Fliaraxá?

Parmeggiani –Ter bons encontros: com o público, com os outros autores, com os livros. Que as palavras sejam uma ponte que nos permitam  ir e voltar, iguais e diferentes, ao mesmo tempo.

Notícias relacionadas

Deixe um comentário: