Marcia Tiburi destaca a música, a literatura e a filosofia durante o 5º Fliaraxá

Marcia Tiburi destaca a música, a literatura e a filosofia durante o 5º Fliaraxá

A filósofa e escritora Marcia Tiburi tem presença confirmada na quinta edição do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), que acontece de quarta (14) a domingo (18), na Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB).

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A autora faz um debate sobre “Música, literatura e filosofia” com o também escritor Nelson Motta. Em entrevista, Marcia Tiburi fala sobre o atual momento vivido pelo país, o poder das redes sociais e a importância da literatura para a formação de seres pensantes e críticos. Confira a entrevista:

Fliaraxá – A literatura tem poder para amenizar as diferenças e potencializar o amor em uma sociedade polarizada e hostil?

Marcia Tiburi – A literatura inventa o leitor e o escritor e assim, formando subjetividades, contribui para a formação das mentalidades. É claro que a literatura tem poder nesse sentido, o poder de formar o campo do imaginário atualmente empobrecido pela publicidade geral na qual se transformou a vida. Por publicidade refiro-me a uma lógica baseada no pensamento pronto que se vende a preços diversos, sempre pagos pelos “consumidores de ideias fáceis”. A literatura anda junto com a filosofia, ela também faz pensar. Não são textualidades fáceis. A literatura faz também sentir diferente, faz agir diferente. Certamente ela pode potencializar afetos, tanto o amor, assim como o ódio. A questão essencial é também pensar de que amor estamos falando.

Fliaraxá – No “Como conversar com um fascista” você trata sobre a intolerância exacerbada quando se trata de questões de cultura política. Você considera que essa intolerância às diferenças, no geral, é potencializada pela mídia e redes sociais?

Marcia Tiburi – É potencializada pelas redes, pelas mídias, certamente.  Inclusive a tese do livro é de que nada do que estamos vivendo em termos afetivos seria possível sem a manipulação operada pelos meios de comunicação que são parte do poder hegemônico, elitista, patriarcal, neoliberal. Tudo isso que já sabemos. Ao mesmo tempo, é preciso ter consciência de que os meios são apenas meios, que são usados para isso ou aquilo. Os próprios meios que operam a manipulação são manipulados e manipuláveis. Há um pensamento por trás do processo. Há ideologia. É preciso conhecer o poder da linguagem e dos meios que a administram e criam e usá-lo com vistas aos fins democráticos.

Fliaraxá – Qual a importância dos festivais literários, em tempos digitais, onde a informação é quase sempre superficial e fragmentada?

Marcia Tiburi – Os festivais tem dado suporte à literatura que hoje em dia é uma arte ameaçada como toda arte. Produzir um festival, como faz Afonso Borges com toda a sua equipe, é um ato de militância pela literatura e pela leitura. Escritores que participam desses encontros também são militantes nesse sentido. Há algum tempo atrás, alguns escritores comentaram que a tarefa do escritor é escrever e que isso deveria bastar, mas não creio que isso possa ser aplicado ao Brasil, sobretudo nessa época em que o analfabetismo propriamente dito e o analfabetismo políticos são promovidos.

Fliaraxá – Este será o seu terceiro Fliaraxá. Tem alguma história bacana que te marcou nos festivais passados?

Marcia Tiburi – Eu adorei participar das edições do Fliaraxá. Tem muita história. Tem aquele hotel do qual não se sai sem contar alguma coisa curiosa, mas isso eu deixo pra contar ao vivo. Gostei particularmente do ano em que eu e Evandro Affonso Ferreira fizemos uma oficina de literatura. Muitos escritores vieram nos visitar e conversar com os participantes. Constatamos que todos os mineiros escrevem muito bem. Chega a ser uma covardia quando tem mineiro na sala de aula, mas naquele dia eram todos, ou quase todos, mineiros. Lembro do Tom, que é carteiro em Araxá, como escreve bem!

“A literatura anda junto com a filosofia, ela também faz pensar. Não são textualidades fáceis. A literatura faz também sentir diferente, faz agir diferente”

Fliaraxá – Quais suas expectativas para o quinto Fliaraxá? Há novidades que você prepara para contar no evento?

Marcia Tiburi – Eu vou ler um trecho do meu romance novo.

Fliaraxá – Você e o escritor Nelson Motta irão debater sobre o tema “Música, literatura e filosofia”. De que forma esses três elementos se encontram ?

Marcia Tiburi – Eu e Nelson já temos essa conversa há algum tempo. Vamos retomá-la. A Fliaraxá é uma oportunidade de fazer isso. Há muitos nexos entre essas três formas de linguagem, a música, a literatura e a filosofia. Elas se entrelaçam, apoiam-se e lutam entre si também. Acho que também é uma oportunidade de poder falar dos nossos campos de pensamento e ação artística. Além disso, essas formas da linguagem explicam o nosso mundo. Basta saber ler cada uma delas como exposição dos afetos e do inconsciente de um tempo.

Fliaraxá – O amor é a melhor forma de se entender e conviver com as diferenças?

Marcia Tiburi – Podemos começar por dizer que o amor é uma coisa boa, sobretudo se o contrapomos ao ódio. Mas pode também ser algo perigoso. Assim como a ética e a democracia, o amor é uma palavra que pode ser manipulada para acobertar coisas terríveis que as pessoas gostam de fazer. Penso, por exemplo, no amor romântico, nos crimes passionais, no uso que as religiões que pregam o amor fazem dessa palavra. Não basta, portanto, falar do amor, pedir amor. É preciso entender de que modo esse sentimento, esse afeto, pode ajudar a formar as pessoas. Penso, sobretudo, nas crianças que recebem um tipo de educação para a frieza, que são ensinadas desde pequenas a ter preconceitos. Se pensarmos e produzirmos o amor como sendo o compromisso com a ética e o reconhecimento em uma sociedade preconceituosa, então acho que está valendo. Se o amor for o contrário dos preconceitos ele pode nos ajudar a viver de modo mais digno, sim.

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